Neurociência, pSICOLOGIA, Emoções & DIA-A-DIA
Por Paola Vitalino da Silva · 11 de março de 2026 · 7 min de leitura
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Tem um tipo de solidão que ninguém avisa que vem junto com a mala. Não é a solidão de estar sozinho num quarto… É a solidão de estar num lugar cheio de pessoas e ainda assim sentir que ninguém realmente te conhece.
“Tenho colegas, saio, tenho uma vida social. Mas às vezes sinto que ninguém aqui sabe de verdade quem eu sou.”
Esse sentimento tem um nome em inglês que ficou famoso nos últimos anos: loneliness. Mas para quem viveu no Brasil, onde os laços afetivos são intensos, as relações são próximas e a vida social é quase uma segunda pele, a solidão no exterior tem uma textura muito específica.
Você pode estar cercado de pessoas e se sentir completamente sozinho. E pode estar fisicamente sozinho e se sentir conectado. O que define a solidão não é a quantidade de pessoas ao redor, mas a qualidade da conexão que você experimenta.
Quando você chega num novo país, as amizades que se formam têm, naturalmente, uma superficialidade inicial. As pessoas não conhecem sua história, não entendem suas referências culturais, não sabem o que é o Carnaval, o que é saudade, o que é uma reunião de família brasileira. Há uma camada de tradução constante que cansa e que cria distância.
Com o tempo, algumas dessas amizades se aprofundam. Mas enquanto isso não acontece, você carrega o peso de relações que ainda não têm raiz.
Não é à toa que a palavra ‘saudade‘ não tem equivalente em outros idiomas. Ela descreve algo muito específico da experiência afetiva brasileira: uma presença que se sente mesmo na ausência. Não é apenas sentir falta… É carregar alguém ou algo dentro de você mesmo de longe.
A saudade que o brasileiro sente quando mora fora vai além das pessoas. É saudade do jeito de se relacionar, da informalidade, do calor das interações, do português que soa como casa, do cafezinho, do bairro, do cheiro do Brasil.
“Sinto saudade de coisas que nem sei nomear. É um aperto no peito que aparece nos momentos mais inesperados.”
Esse luto silencioso (porque é isso que é, um luto) raramente é reconhecido como tal. Afinal, você não perdeu ninguém. Você escolheu ir. Mas escolher não elimina ou invalida a dor da perda. E ver coisas que fazem sentido, também não.
A solidão crônica tem impactos sérios na saúde mental e física. Pesquisas mostram que o isolamento social prolongado afeta o sistema imunológico, o sono, a capacidade de concentração e aumenta o risco de depressão e ansiedade.
Alguns sinais de que a solidão está pesando demais: dificuldade de se motivar para sair ou se conectar com pessoas, sensação de que ninguém te entenderia mesmo se você tentasse explicar, uso excessivo de álcool ou outras substâncias para amortecer o desconforto, hiperconexão com o Brasil via redes sociais como forma de compensar a distância.
O que não ajuda: fingir que está tudo bem, isolar-se ainda mais esperando que passe sozinho, comparar sua experiência com a de outras pessoas que ‘parecem’ se adaptar mais fácil.
O que ajuda: nomear o que você está sentindo sem julgamento, buscar comunidades de brasileiros no exterior sem depender exclusivamente delas, criar pequenos rituais que conectem você à sua cultura, e quando a solidão se torna pesada demais para carregar sozinho buscar apoio profissional.
A psicoterapia online oferece algo precioso para quem vive fora: um espaço em português, com alguém que entende a experiência do imigrante, onde você pode ser completamente honesto sobre como está se sentindo, sem precisar traduzir nada, afinal falar sobre nós e nossos sentimentos precisa ser com quem entende deles, não é mesmo?!
Paola Vitalino da Silva
Psicóloga · CRP 08/30509 · Especialista em neurociências afetiva, Psicopatologia, Terapia Cognitivo Comportamental e Psicologia Clínica